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Hidroelétricas - Energia - Apagão

O AVISO DOS PÁSSAROS
HIDRELÉTRICAS PROVOCAM EFEITO ESTUFA

TECNOLOGIA ANTI-APAGÃO
O AZUL DA TERRA
O GIGANTE BRASIGUAIO
TUDO EMBAIXO D´ÁGUA
GOVERNO E INVESTIDORES SE VOLTAM PARA TERMOELÉTRICAS
ESTUDO QUESTIONA A VIABILIDADE DAS HIDRELÉTRICAS NO RIO XINGU

A POLÊMICA USINA DE BELO MONTE
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O Aviso dos Pássaros

"Nos próximos oito anos, cientistas munidos de microfones direcionais ultra-sensíveis vão percorrer uma área pouquíssimo conhecida da floresta amazônica, na fronteira com a Guiana, com uma curiosa incumbência: gravar o canto dos pássaros. É um modo de identificar os efeitos da construção da hidrelétrica de Balbina sobre uma área ecológica de 1500 quilômetros quadrados do rio Trombetas, no norte do Amazonas.

Com o auxílio do computador do Laboratório de Bioacústica da Unicamp, em Campinas, o biólogo francês Jacques Vielliard, que desenvolve esse trabalho pioneiro no Brasil, pretende catalogar  - mediante o registro de seus sons - as espécies de aves encontradas na área e depois observar as mudanças. Ele já acumulou cerca de seiscentas gravações de cantos de pássaros da Amazônia, como o célebre uirapuru, que só canta ao amanhecer - e apenas quinze dias por ano."

(Super Interessante - 03/1998)
 

Hidrelétricas provocam efeito estufa (topo)

Se alguém lhe dissesse que o Brasil é um dos maiores vilões do aquecimento global, você certamente colocaria a culpa nas queimadas da Amazônia.

Mas os cientistas estão responsabilizando pela emissão de gases estufa justamente as usinas hidroelétricas, proclamadas como uma técnica ecologicamente correta de gerar energia.

Um relatório da Comissão Mundial de Represas afirma que algumas hidroelétricas lançam tanto gás carbônico (CO2) na atmosfera quanto as usinas termoelétricas que queimam carvão.

Isso porque, quando uma represa é construída, uma área enorme de floresta fica inundada. A vegetação apodrece, lançando no ar doses gigantescas de dióxido de carbono e metano.

    Como era de se esperar, o problema é maior na região amazônica, onde estão algumas das maiores barragens do país, como a de Tucuruí, no Pará. Ela libera anualmente 6 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. "Isso equivale a um décimo de todo o gás carbônico emitido no Brasil", alerta Philip Fearnside, do Instituto de Pesquisas da Amazônia, autor de um estudo ainda inédito sobre o impacto ambiental da represa.

(Super Interessante)

Tecnologia anti-apagão (topo)

"Se a produção de eletricidade no Brasil está em crise não é por falta de opções tecnológicas. Inúmeros meios viáveis de gerar eletricidade têm sido ignorados ou mal-aproveitados.

Nesse pacote tecnológico de ponta estão, entre outras, a energia do vento (ou eólica), a solar e a da biomassa, ou seja, a produção de eletricidade pela queima de matéria-prima vegetal como o bagaço de cana ou o óleo de dendê.

Nenhum desses recursos representa uma solução mágica e, assim como as fontes de energia tradicionais, também têm suas vantagens e desvantagens (veja o quadro abaixo).

Mas poderiam complementar e ampliar a produção de energia no Brasil, onde mais de 90% da eletricidade consumida ainda vem das hidrelétricas. Deu no que deu: a escassez de chuva terminou em tarifaços de surpresa e ameaça de apagões.

"Se tivéssemos diversificado nossas fontes energéticas, não estaríamos hoje nessa situação", diz o engenheiro Célio Bermann, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo.

Ele cita o exemplo da energia solar, cuja importância é fácil de perceber num país tão ensolarado quanto o Brasil. Bermann ilustra o argumento com um cálculo hipotético. Segundo ele, toda a eletricidade consumida atualmente no país - 330 bilhões de quilowatt/hora (kWh) ao ano - poderia ser gerada por uma única usina solar que ocuparia o espaço hoje tomado pelo lago da hidrelétrica de Itaipu, cuja área é de 1 350 quilômetros quadrados.

Isso dá uma idéia do potencial energético brasileiro. Apesar disso, estamos aproveitando do Sol apenas 52 milhões de kWh/ano, 6 000 vezes menos que o consumo total do país.

A biomassa é outro recurso crucial por ser extremamente abundante no Brasil. "Somente o bagaço de cana nos daria um potencial de 26 bilhões de kWh/ano", diz Bermann. "Mas estamos gerando, atualmente, apenas dez bilhões". Isso para não falar no biodiesel, óleo combustível extraído de vegetais como o dendê, que também poderia ser queimado para gerar eletricidade.

Quanto ao vento, segundo o engenheiro, a tecnologia eólica disponível poderia dar ao Brasil 250 bilhões de kWh/ano, 75% do consumo total do país. Mas ela nos dá efetivamente apenas 150 milhões de kWh/ano - 1 500 vezes menos do que seria possível.

Outro recurso mal-aproveitado são as pequenas centrais hidrelétricas, instaladas em rios modestos e riachos para suprir as áreas vizinhas. "Na minha opinião, é uma forma mais racional de produzir eletricidade do que fazer grandes e caras centrais como Itaipu", afirma Bermann.

Nossa capacidade de tirar energia dos pequenos rios é da ordem de 85 bilhões de kWh/ano, mas estamos aproveitando somente 7 bilhões de kWh/ano.

Esse leque de tecnologias teria deixado o país com muito mais flexibilidade para enfrentar a crise atual. Em ano que não chovesse, como este, poderíamos contar com a energia solar, por exemplo. A falta de opções, em vez disso, tende a aumentar o erro básico do governo, de não ter ampliado a produção de energia para acompanhar o crescimento da economia nos últimos anos.

Para compensar o descompasso, as hidrelétricas gastaram a água que deveria ficar armazenada para enfrentar situações como a da seca atual, a pior dos últimos 70 anos.

Diante disso, os problemas estão apenas começando: como as chuvas terminaram em março, os reservatórios deveriam estar a plena carga para enfrentar a relativa falta de água dos próximos meses.

Como eles estão muito longe disso - um pouco acima da marca crítica, de 10% da capacidade total - podemos chegar às vésperas do próximo período de chuvas, em novembro, com saudade dos apagões de junho. ( drusso@abril.com.br )

Vários fatores influem na hora de optar por uma forma de gerar energia. Os principais são o custo de construção da usina e os gastos para mantê-la operando.

O impacto ambiental também tem que ser considerado. Outro dado é o tempo real de operação, que mede a porcentagem do tempo que a central efetivamente produz energia, descontadas interrupções causadas, por exemplo, pela falta de gás, chuva ou sol.

Tipo de Energia

Custo de Construção
(US$/kWh)

Custo de Operacão
(US$/MWh)

Impacto Ambiental

Tempo real de produção

Hidrelétrica

de 1000 a 1500

 de 25 a 40 

destruição de ecossistemas, bloqueio nos rios

de 50% a 65%

Eólica

de 1100 a 2300

de 45 a 65

praticamente nenhum

25%

Solar

de 2500 a 5000

de 45 a 65

insignificante

15%

Termoelétrica a gás

de 400 a 600

de 50 a 80

poluição do ar, aquecimento do planeta

acima de 80%

Termoelétrica a carvão

de 800 a 1000

de 50 a 65

poluição do ar, aquecimento global

acima de 80%

Nuclear

3000

70

riscos de acidentes graves

de 40% a 50%

    Se o lago de Itaipu fosse coberto de células solares geraria toda a eletricidade de que o Brasil necessita  - e nem precisaríamos destruir Sete Quedas"
Super Interessante - Jun/2001 - pag 16-17.
 

O AZUL DA TERRA (topo)

"A Terra é azul", constatou Yuri Gagarin, o primeiro e privilegiado astronauta que a avistou lá de cima. E é azul porque tem 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos de água. Tomando apenas sua extensão de superfície, temos 70% mais água do que terra firme no planeta.

O ciclo é perfeito e interminável: o Sol aquece o solo, os rios e os mares; então, o vapor sobe, agrega-se formando nuvens, daí cai em chuva, alimentando rios, lagos, represas e lençóis subterrâneos. É assim desde que o mundo é mundo, o que nos leva a pensar que água é um recurso natural abundante e inesgotável. Não é.

Apenas 2,7% desse 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos é de água doce, própria para consumo. Mais: dessa já pequena porcentagem, grande parte está congelada nas regiões polares. Somente 0,7% está escondida no subsolo e mísero 0,007% está na forma de rios e de lagos.

Se pegarmos uma garrafa com 1,5 litro de água e a dividirmos proporcionalmente, como a encontramos no planeta, a quantidade de água doce disponível seria equivalente a uma única e insignificante gota.

Para complicar as coisas, esse pouco que temos está cada vez mais poluído, especialmente nos grandes aglomerados urbanos. Cerca de dez milhões de pessoas morrem todo ano por causa do consumo de água contaminada.

Há 150 anos a possibilidade de escassez era coisa de malucos. Só que, no século 20, a população mundial triplicou. Mais gente quer dizer mais fábricas, mais desperdício e, principalmente, mais irrigação nas lavouras. Resultado: o consumo de água nesse período acabou aumentando seis vezes!

De acordo com o Banco Mundial, cerca de 80 países, hoje, enfrentam problemas de abastecimento. "Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso a fontes de água de qualidade", acrescenta Kofi Annan, secretário geral das Nações Unidas (ONU).

Nos países desenvolvidos, ocorre contaminação das águas por resíduos industriais e, principalmente, por nitratos de sódio, cálcio e potássio encontrados nos fertilizantes usados na agricultura.

Esses nitratos, altamente cancerígenos, infiltram-se na terra e, com a ajuda da chuva, são carregados para rios, lagos e lençóis freáticos. Nos países menos desenvolvidos, a questão da água doce e limpa está relacionada ao desperdício, mas principalmente ao esgoto. "Cerca de dois e meio bilhões de pessoas no mundo vivem sem saneamento básico", garante Annan, da ONU. Ou seja, pouco menos da metade dos seres humanos continua jogando seus dejetos na água - ou na terra, que, no fim, leva à água.

Na Ásia, 850 bilhões de litros de esgoto são despejados nos cursos d´água anualmente. Levando em conta que cada litro de sujeira inutiliza 10 litros de água, a idéia de escassez não é, definitivamente, coisa de malucos.

No Brasil, com exceção da região Norte e parte do Centro-Oeste, onde estão as terras alagadiças do Pantanal, a situação dos recursos hídricos começa a ficar preocupante.

Falta água na maioria das bacias do Nordeste, na Grande São Paulo, em regiões de Minas Gerais, Bahia e em algumas áreas do Rio Grande do Sul. "O Brasil dispõe de 16% da água doce do planeta, mas sua distribuição é muito irregular", diz Paulo Paim, coordenador do Fórum Nacional de Comitês de Bacias Hidrográficas. Cerca de 68% de nossos recursos hídricos estão no Norte, onde tem menos gente. Apenas 3% estão no Nordeste e 6% no Sudeste, onde, ao contrário, sobra gente.



O que pode ser feito

Para evitar a crise da água, serão necessárias doses de bom senso e muito dinheiro. Teremos de evitar o desperdício, interromper os processos poluidores e criar novas maneiras de captação, controle e distribuição.

Em alguns países desenvolvidos, a água do esgoto é tratada e depois reaproveitada.

No município americano de Orange County, onde fica a Disneylândia, a população bebe água de esgoto reciclada há mais de 20 anos. O mesmo acontece no Estado do Arizona, onde 80% do esgoto vai para as torneiras.

De acordo com dados do Departamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional da Terra, o Japão reutiliza cerca de 80% de toda a água destinada à indústria. No noroeste da Índia, lençóis freáticos foram salvos com uma idéia barata - e pra lá de óbvia: poços no quintal para recolher água da chuva!

Na maioria dos países já existe consenso a respeito da cobrança pelo uso da água bruta - aquela que é captada sem tratamento, diretamente de rios, lagos ou represas.

Há anos a França implantou essa política, cobrando a água bruta usada em irrigação, uso doméstico e industrial e, assim, tem minimizado seus problemas. O Japão cobra caro por toda a água tirada de seus reservatórios, tornando o reaproveitamento quase uma obrigação.

Vale lembrar que na maioria dos países, inclusive no Brasil, paga-se pelo serviço de fornecimento da água, não pela água em si. Os críticos do esquema de cobrança, porém, alegam que os mais pobres são prejudicados com essa medida.

Ou seja, podem até acontecer revisões nesse capítulo, mas, em países onde a falta de água potável é crítica, a cobrança está se tornando fundamental.

Em Israel, além do pagamento por toda a água consumida, estão em voga multas pesadíssimas para quem polui e desperdiça. "Buscamos um programa de manejo que permita diminuir perdas e punir o desperdício", comenta o consultor internacional de Israel, Baruch Gornat.

O país também investe em novas técnicas de irrigação - 70% da agricultura recebe água residual, ou seja, já utilizada e devidamente tratada - e em dessalinização da água do mar - um processo caro, mas que, no futuro, pode se popularizar e custar menos.

A idéia da cobrança já circula por aqui. O Fórum Nacional de Comitês de Bacias, que reuniu a população, instituições governamentais e não-governamentais, concluiu que está na hora de pensar na cobrança da água, de fiscalizar mais e punir com rigor os poluidores.

Ficou estabelecido também que o dinheiro arrecadado com cobranças e multas deverá ser revertido em favor das bacias hidrográficas, focando investimentos na despoluição e na instalação de redes de esgotos.

Por sua vez, a Agência Nacional da Água (ANA), criada pelo governo federal para gerenciar a quantidade e a qualidade da água, está destinando, este ano, 107 milhões de reais a empresas que implantarem e operarem estações de esgotos sanitários nas bacias.

Se, guardadas as diferenças e necessidades de cada país e região, essas medidas forem levadas adiante, em um futuro próximo poderemos ter mais água limpa e mais rios salvos da morte.

Há exemplos como o do Rio Tâmisa, na Inglaterra, recuperado à custa de dinheiro e de boa vontade.

E há também idéias insólitas, como a do Paquistão, que pensa em derreter as geleiras acumuladas em suas altas montanhas, entre elas as do Himalaia. "Não terminamos nosso estudo ainda, mas achamos que podemos acelerar o derretimento da neve aspergindo carbono preto", disse, numa entrevista, o diretor geral do escritório de meteorologia do Paquistão, Qamar-Uz-Zaman Chaudhry.

No dia-a-dia, cada um de seu jeito, podemos ajudar de alguma forma. Estamos acostumados a escovar os dentes com a torneira aberta, passamos muito mais tempo do que o necessário no chuveiro e, em geral, não falamos nada quando o vizinho lava o carro e deixa a mangueira derramando na calçada.

Um estudo recente da Agência Nacional da Água revela que cada brasileiro usa, todo dia, pelo menos 200 litros do - temos de convir - precioso líquido. Será que precisamos mesmo de tanto?

(Super Interessante - Jun/2001- pag 28-29)
 

O GIGANTE BRASIGUAIO (topo)

A usina hidrelétrica de Itaipu, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, mantém o recorde de maior e mais potente do mundo há 17 anos. Abastecida pelas águas do Rio Paraná, ela é fruto de uma parceria entre os dois países vizinhos.

Seus números impressionam: só de concreto foram utilizados 12,57 milhões de metros cúbicos, material suficiente para construir 210 estádios como o Maracanã. A altura da barragem principal, de 196 metros, equivale à de um prédio com 65 andares e o seu lago artificial atinge 1 350 quilômetros quadrados.

A potência instalada da usina é de 12 600 mW (megawatts). É alimentada pela produção de 18 dínamos geradores de energia e supre 95% da energia elétrica consumida no Paraguai e 24 % do mercado brasileiro.

 

TUDO EMBAIXO D´ÁGUA  (topo)

Desde a construção da Grande Muralha, há 2 500 anos, os chineses não faziam nada parecido. No Rio Yang-tsé, o maior da China, está sendo construída uma represa que, quando ficar pronta, em 2009, levará da usina binacional de Itaipu, brasileira e paraguaia, o título de maior do mundo. A hidrelétrica de Três Gargantas aumentará em 10% a produção de eletricidade do país e transformará o rio numa grande hidrovia, possibilitando o controle das enchentes que, neste século, já mataram 200 000 pessoas. Mas seu impacto ambiental será devastador.

O lago formado pela represa terá 1 084 quilômetros quadrados. Não é muito diante da hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, que, em 1975, inundou 4 214 quilômetros quadrados e desalojou 70 000 brasileiros. Só que a China é muito mais povoada: 160 vilas e cidades, como Fengdu, de 65 000 habitantes, serão afogadas, obrigando a remoção de mais de 1,3 milhão. Assim como Itaipu acabou com Sete Quedas, no Rio Paraná, a represa destruirá sítios arqueológicos e históricos de valor incalculável. E afogará uma das paisagens mais belas do planeta, um conjunto de três magníficos cânions, ou gargantas, do Yang-tsé - que dá nome à usina. Com um custo desses, a obra desperta controvérsia no mundo todo.

Tesouros arqueológicos inundados

A idéia de aproveitar o potencial do Rio Yang-tsé, o quinto maior do mundo, habita os sonhos de todos governantes chineses desde o século XIX. Mas só em 1994 foi que o primeiro-ministro Li Peng lançou a pedra fundamental da obra, a maior do planeta na virada do milênio. É um projeto caríssimo, em todos os sentidos - financeiro, humano e ambiental. O orçamento oficial é de 25 bilhões de dólares, mas o custo final poderá chegar a 75 bilhões - uma vez e meia o total das exportações brasileiras em 1997.

Os moradores deslocados estão recebendo casas novas e mais confortáveis. Mas os camponeses que viviam na beira do rio terão de se conformar com terras bem menos férteis em regiões montanhosas. Boa parte da história arqueológica da China, nascida ao longo do rio, será afogada. Além disso, a barragem aumentará a poluição da água. A sujeira acumulada tornará quase inevitável a extinção de um tipo raríssimo de golfinho, que só existe no Yang-tsé.

Terremotos, enchentes e ditadores

Para convencer as agências financiadoras internacionais, como o Banco Mundial, a emprestar dinheiro para obra, o governo da China usou um argumento de peso. Quase toda a eletricidade do país é gerada em usinas a carvão, altamente poluidoras. Isso faz dos chineses um dos maiores emissores mundiais de CO2, o gás carbônico, que sobe à atmosfera e abafa o planeta, aumentando a temperatura global - provocando o efeito estufa. A hidrelétrica produzirá uma energia limpa, capaz de sustentar a arrancada econômica do país sem envenenar ainda mais a atmosfera. E a economia da China não pára de crescer.

Mas há dúvidas quanto à segurança da barragem. Os geólogos norte-americanos Leonard Sklar e Amy Luers, que visitaram a obra no ano passado, notaram que a região de Três Gargantas está sujeita a abalos sísmicos. Qualquer tremor poderá causar danos à estrutura. "Os engenheiros estão brincando com a natureza", alertaram Sklar e Luers. Várias represas já desmoronaram na China, nos últimos vinte anos. Outro perigo está no próprio regime de águas do Yang-tsé. O rio provoca enchentes a cada dez anos, em média, por causa do derretimento das neves no Tibete, onde estão suas nascentes. Uma cheia maior do que as habituais pode fazer o lago represado transbordar, ameaçando centenas de milhares de vidas humanas.

Mas talvez o maior problema seja o político. A China vive sob um regime político ditatorial. Os chineses estão impedidos de discutir livremente os prós e os contras da represa. Não há informações na imprensa, fora as oficiais.

Domando o Yang-tsé

O lago formado pela represa de Três Gargantas vai submergir cidades importantes.

Chongquing

A cidade, de 2,2 milhões de habitantes, fica na extremidade do lago a ser formado pela represa. A expectativa da chegada de navios de grande porte gerou uma febre de investimentos.

Navios de 10 000 toneladas (o dobro da capacidade dos que navegam no rio, atualmente) poderão ir até Chongqing, a 2 400 quilômetros do Mar da China.

Fengdu

A cidade será totalmente submersa. Uma nova está sendo construída para abrigar os 65 000 habitantes.

Com 26 turbinas gigantes, Três Gargantas fornecerá energia equivalente à produzida por 18 usinas nucleares de porte médio, ou 10% do consumo de eletricidade da China.

Wanxian

Dois terços da cidade, de 160 000 habitantes, ficarão embaixo d’água.

O templo de Zhang Fei, do século XII, será demolido e reconstruído em outro lugar.

Três Gargantas

O local foi escolhido por causa de uma ilha no rio, que apoiará parte do muro da barragem. Este trecho é ladeado por imponentes cânions, cujas paredes servirão de reservatório natural para a água.

O lago artificial terá 600 quilômetros de extensão, o equivalente à distância entre São Paulo e Belo Horizonte.

Risco de vida

O baiji, golfinho de água doce do Yang-tsé (Lipotes vexilifer), está ameaçado de desaparecer com a poluição das águas

Duelo de titãs

Veja as características do projeto das duas maiores hidrelétricas do mundo

 

Itaipu

Três Gargantas

Turbinas

18

26

Potência instalada

12 600 megawatts

18 299 megawatts

Concreto utilizado

12,5 milhões de m3

 27,1 milhões de m3

Vazão

62,2 bilhões de m3/s

116 bilhões de m3 /s

Extensão máxima do lago

170 km

 600 km

Custo

 US$ 16 bilhões

US$ 25 bilhões

Pessoas desalojadas

 4 000

1,3 milhão

Super Interessante - set/1998


(topo)