Poluição luminosa
por Bernardino Guimarães - ambientalista

Habituamo-nos a cidades refulgentes de luz e de brilhos, mas o preço disso é não vermos o céu.

Olhar o vasto céu estrelado, a abóbada celeste nocturna, eis um privilégio reservado a poucos. Mas quê, já não se pode contemplar os astros, em busca da estrela polar e das constelações distantes, com seus desenhos míticos - perguntará o meu caro leitor?

Na verdade, e em particular para quem vive nas cidades, esse é um exercício cada vez mais difícil... e improdutivo. O céu não nos revela os seus segredos, tornou-se baço e isso por causa da poluição luminosa, tão pouco falada quanto omnipresente. Há quanto tempo não reparamos no brilho das estrelas? As crianças de agora podem mesmo crescer, sem que saibam o que é a beleza do firmamento - num tempo em que tanto se ouve dizer sobre conquistas espaciais e viagens percorrendo o nosso sistema solar e mais longe ainda!

Mas o que vem a ser essa poluição luminosa, que nos tapa a visão maravilhosa dos quadrantes estelares? Afinal de contas, nada mais que os reflexos da luz artificial, da iluminação pública, candeeiros e holofotes disseminados a esmo nas cidades, nas estradas, mesmo já nas áreas rurais, a luz dos anúncios comerciais e a que realça monumentos durante a noite. Habituámo-nos a cidades feéricas, refulgentes de luz e de brilhos - mas o preço disso é não podermos ver o céu.

A luz emitida para o espaço, reflecte-se nas nuvens, em gotículas de água e nas poeiras em suspensão, criando nas camadas atmosféricas um sério obstáculo à observação das estrelas.

As primeiras vítimas deste fenómeno - que é hoje quase universal - foram os astrónomos profissionais e os grandes observatórios, que a pouco e pouco se deslocalizaram para as improváveis paragens onde o céu ainda está livre das tais impurezas luminosas. Por isso mesmo, a pesquisa dos fenómenos estelares mudou-se para locais como o Chile - onde está o Observatório Europeu do Sul - Tenerife, Porto Rico e Austrália, com os seus poderosos rádiotelescópios.

Os amadores das estrelas, esses, procuram sítios mais próximos, porém ainda oferecendo condições mínimas de observação. Se, há poucas décadas, ainda se viam as principais estrelas na noite portuense, com o equipamento adequado, agora há que demandar a serra do Gerês ou o interior alentejano. Em todo o restante território nacional, e sobretudo em volta das áreas urbanas, a prática da astronomia tornou-se quase impossível.

Talvez fosse possível atenuar, ao menos, esta poluição que nos priva de tanta beleza e fascínio (será preciso referir o significado das estrelas, das constelações, na nossa cultura desde há milénios e que ficou na ciência, na literatura, na memória colectiva?).

Bastaria moderar o gosto das autarquias pela iluminação... desnecessária. Um gigantesco desperdício de energia acompanha a poluição do céu. Seria fácil prescindir dos monumentos e edifícios iluminados toda a noite. Melhor ainda os candeeiros de iluminação pública podem ser mais eficientes, se forem concebidos para projectar a luz para onde ela é indispensável (o chão) e não para cima, como vemos em tantos sítios.

As lâmpadas em globo, dizem os entendidos, são totalmente irracionais - espalham a luz em todas as direcções menos para baixo, dissipando luminosidade para o espaço e deixando ruas... às escuras!

Calcula-se que a energia perdida por esses sistemas, numa cidade, se situe entre 25% e 40%. Ou seja, os contribuintes não podem ver a Ursa Maior nem a Cassiopeia, e ainda pagam a factura.

Perdemos o contacto vivido e físico com a terra e a vida silvestre, já nem o céu se avista, o mundo empobrece e uma enorme herança cultural passa para a categoria das coisas de museu.

Será essa a vida que queremos?


Escrito em Português lusitano
Reproduzido com permissão do autor
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http://jn.sapo.pt/2005/08/23/grande_porto/poluicao_luminosa.html