Homenagem do Aster a um artista anônimo.
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por Ronaldo R. Pedrão
Um sonhador Antonio Martinelli Munhoz nasceu em Presidente Alves, em 26/06/1937. Ainda criança foi para Itú, e veio para São Paulo no final da adolescência. Já adulto, montou uma empresa de móveis com irmão e cunhados, a ManviBox onde também existia uma marmoraria. A marmoraria era utilizada para fazer as pedras das mesas, detalhes nos móveis, etc. Em 1982, decidiram fechar a ManviBox e continuaram com a marmoraria. Fez curso de técnico em torneiro mecânico "e era um auto-ditada formidável! Sempre com seu caderno (que utilizava a mesma folha várias e várias vezes!!!). Algo que só ele entendia quando os desenhos iam se sobrepondo." Começou a se interessar por Astronomia desde pequeno. Mauricio, filho de Antonio, lembra desta paixão dele desde 1978, quando o pai iniciou seus estudos no Observatório Municipal de São Paulo para construção de lentes e de telescópios. Mauricio também é um entusiasta "envolvido em astronomia amadora desde os 6 anos e começou por conta do pai."Tenho 35 e lá se vão 29 anos, às vezes, com dor na nuca." Ele diz que o pai "era um sonhador, que queria um mundo sem fronteiras. Parece que os astrônomos são muito parecidos, tem a mesma índole". "No início tudo era feito no quinta de casa. Com o tempo, e com o aumento na quantidade de peças e maquinário, foi levando aos poucos tudo para a marmoraria. Foi gradativo. Lembro que no início usava o fogão da mãe para fazer as ferramentas em piche. Cheiro na casa inteira!" Estava "sempre procurando soluções 'caseiras' e práticas. Essa era a busca dele: algo caseiro, barato e absolutamente funcional. Foi um grande engenheiro, apesar de nunca ter estudado engenharia!!! Um exemplo para mim. Talvez por isso eu tenha estudado engenharia. Não sei." Apesar do belo trabalho, Antonio era quase desconhecido entre os amadores. "Ele era do tipo que sabia demais, fazia demais e com um grande senso crítico, mas na hora de ir a público, ou de participar de grupos, comunidades, ficava tímido, 'fechadão'. Era o mundo dele. Ele era introspectivo. Talvez seja essa a palavra."
"Sobre a família, todos o amam muito. Um exemplo e muitas saudades."
A visita - 16/09/06
Depois do falecimento de Antonio a cerca de 3 meses, a família procurava por alguém que pudesse continuar o trabalho do pai. Maurício acabou encontrando o site do Aster, entrou em contato comigo e combinamos de lhes fazer uma visita. "Tem uma série de materiais que gostaria de entregar para quem conhece o ofício de montar telescópios. É um assunto bem emocional ainda, mas que precisa ser feito." Contei a Fabio Pires, Irineu Felippe e Francisco Campos, membros do Aster a respeito do convite. Fabio encarregou-se de contatar Maurício e combinar a ida a São Paulo para buscar o material. Mas nem em sonho podíamos imaginar a quantidade e qualidade das peças e ferramentas deixadas por Antonio. Eu vou muito pouco à capital, mas esta me pareceu uma manha típica da terra da garoa. Céu branco-cinzento, dia frio e úmido. As nuvens cobriram a cidade durante toda a manha e parte da tarde. Ora, bem melhor que um dia quente e abafado numa cidade poluída como São Paulo. Depois de cruzar a cidade inteira, e alguns desvios, Fábio, Irineu e eu, chegamos à Marmoraria Vera onde ficava pequena fábrica de telescópios. Fomos muito carinhosamente recebidos por Mauricio, sua mãe, Dona Vera e o amigo Humberto. Entre muita emoção - e às vezes, lágrimas - a família foi nos contando, aos poucos, a história de Antonio, que não gostava muito de sair de casa. Preferia ficar trabalhando nos telescópios. Humberto era o mais entusiasmado. Conhecia tudo sobre a oficina. Ia nos contando cada detalhe, a história e a finalidade de cada peça. Ele mostrou os tripés feitos de um tubo metálico de 5 cm de diâmetro e cerca de um metro de altura montado sobre pés fundidos em alumínio. Também nos mostrou o "teste de Foucault", contando em detalhes, o seu funcionamento. Acho que foi Dona Vera que disse que uma revista havia publicado um artigo falando do trabalho de Munhoz. Ao ler a matéria mais tarde me pareceu que o tempo não havia passado. Por coincidência, quando Maurício mostrou a revista, eu logo lembrei que tinha o artigo, provavelmente desde a década de 90. Ficamos muito impressionados com a dedicação e criatividade do artesão. Havia dezenas, ou talvez, centenas de peças de vidro cortados em formato redondo e retangular, para a produção de oculares, espelhos primários e secundários em vários estágios de produção, desde apenas cortados, polidos, testados, até aluminizados. Além de outras tantas partes de telescópios, como tripés, bases azimutais, aranhas, buscadoras, tubos vazios mas com toda a furação já feita, buscadoras feitas de canos de PVC ou de uma única chapa metálica com dois furos servindo de mira, suportes de espelhos primários e secundários, tripés de madeira ou metálicos. Também haviam dois telescópios, um telescópio de 80mm e um de 140mm, completamente montados.
A oficina
A oficina que dividia espaço com a marmoraria, ainda hoje, lembra muito a descrição e a foto da matéria da revista. Uma caixa continha as ferramentas para a fabricação de oculares. Havia abrasivos de várias espessuras, pequenas "bacias" ou "cuias" e ferramentas para fixar as lentes e dar polimento. Muitas peças pequeninas, anéis de fixação, corpos de oculares minuciosamente construídos. Há material para a construção de dois tipos de oculares, de 4mm e de 10mm de distância focal. Mas há uma peça que Maurício vai guardar com carinho especial. "Do meu pai, que fazia refletores, não fiquei com nenhum, mas fiquei com um 'presente especial' que ele montou para mim. Um refrator com lentes francesas de 1905, que vieram ao Brasil para montar um observatório em Porto Alegre. Só não sei como vieram parar nas mãos dele". A lente está montada num tubo metálico e um tripé pesado e rústico, mas que também contém peças em latão, uma amostra que Antonio usava o que tinha disponível sem descuidar da perfeição.
O Acervo
Uma das belas peças é uma pequena montagem azimutal, quase em estilo Dobson. A peça é pequena e leve e pode ser posta sobre uma mesa ou cadeira. Junto com um pequeno refletor de 80mm, forma um belo conjunto portátil e indicado para iniciantes. Antonio chamou esse conjunto de MIRA e fez até uma apostila com instruções de uso, montagem e limpeza do aparelho. Quisera eu, ter um desses quando comecei! A base do Mira tem três partes principais. Uma base retangular que apóia toda a peça. Sobre esta ficam um rolamento feito com seis esferas de aço e uma chapa de madeira. Um parafuso na vertical prende as duas bases horizontais e dando um movimento azimutal bem suave à toda a montagem. Na vertical há uma outra peça de madeira, retangular, servindo de suporte e dando movimento vertical ao telescópio. Um outro modelo é o CENTAURUS, refletor de 135mm em montado em tripé de madeira e sistema azimutal.
O Legado A partir de agora o Aster tem uma grande responsabilidade. Dar seguimento ao trabalho de Munhoz e um bom destino a esse material. Trazer gente nova para a astronomia e fornecer equipamentos de observação aos novos e antigos astrônomos amadores. |
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Atualização: 01/04/2007 13:02 |