Há 40 anos, o homem realizava o sonho de chegar à Lua
(parte 3)
Por Vitorio L.O. Zago.
A reta final
O Projeto Gemini começa em 1962. As naves apresentaram significativas melhorias técnicas. Eram maiores se comparadas às apertadas cápsulas da Mercury. Todo o projeto de meia década possibilitou um avanço na tecnologia espacial, preparando a terceira etapa do programa para chegar à Lua. A última missão foi o Gemini XII, um vôo tripulado em 1966.
A terceira e última etapa da aventura de chegar à Lua, foi o projeto Apollo. Foi nessa etapa que osamericanos conseguiram desenvolver uma tecnologia que os possibilitou de fato ir a Lua. Além das melhorias técnicas dos módulos, também foi desenvolvido o gigantesco foguete Saturno V, com mais de cem metros de altura e cerca de 10 metros de diâmetro. O Saturno V, formado por vários estágios, foi o maior e mais potente foguete construído pelo homem e que funcionou com sucesso até hoje. O único foguete similar em tamanho ao Saturno V foi o N1 soviético. Mas o N1 acabou não sendo utilizado, pois nas duas tentativas realizadas em 1969, em 21 de fevereiro e 3 de julho (13 dias apenas antes da missão Apollo 11), fracassaram e o foguete explodiu momentos depois de sua ignição. Felizmente eram testes do foguete e, portanto, missões não tripuladas, não havendo nenhum cosmonauta russo a bordo.
O projeto Apollo se deu em 17 missões entre os anos em que vigorou o projeto, de 1961 a 1975, quando então foi sucedido pelo projeto do ônibus espacial. A primeira missão tripulada foi a Apollo 7 em 1968, que orbitou a Terra e foi a primeira missão formada por três astronautas. Foi com a Apollo 7 que se começou a usar o foguete Saturno V. A Apollo 9 (1968) também orbitou a Terra. Já as Apollos 8 (1968) e 10 (1969) orbitaram a Lua. Estávamos cada vez próximos.
No dia 16 de julho de 1969, saindo da base de lançamento do Centro Espacial Kennedy no Cabo Canaveral na Flórida, o enorme foguete Saturno V levou ao espaço a astronave Apollo 11, formada pelos módulos Columbia (comando e orbital) e Águia (lunar). Quatro dias depois, em 20 de julho, a Apollo 11 chegou a Lua com os seus três astronautas americanos da missão, Neil Armstrong (Wapakoneta, 1930), Michael Collins (Roma, 1930) e Edwin “Buzz” Aldrin (New Jersey, 1930). Ironicamente, a não tão tranqüila alunagem com o módulo lunar Águia ocorreu no Mar da Tranqüilidade.
Collins permaneceu a bordo do módulo orbital Columbia. Depois ele descreveria sua incrível sensação ao passar pelo lado oculto da Lua e ver a partir do módulo um lado todo repleto de estrelas e o outro mergulhado em trevas assustadoras. E, ao perder contato com a Terra nesse momento, disse ter sentido a “maior solidão que um homem já sentira...”.
Na superfície da Lua, Armstrong, o comandante da missão e o primeiro a pisar o solo lunar e dizer a famosa frase “Este é um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade”, e Aldrin permaneceram 131 minutos ali, quando, além de alguns experimentos, coletaram cerca de 27 quilos de amostras do solo do nosso satélite.
Terminada a missão, o módulo lunar Águia saiu da Lua deixando nela sua base. Após a acoplagem em órbita da Lua, o Águia foi abandonado no espaço, e o módulo Columbia seguiu viagem de volta para a Terra com seus três tripulantes. No dia 24 de julho, os três astronautas chegam à Terra sãos e salvos, caindo no Oceano Pacífico, próximo às ilhas do arquipélago do Havaí. A descida no oceano foi suavizada após a nave acionar enormes pára-quedas e flutuadores automáticos. Os três astronautas foram então abordados e levados pelas equipes de resgate. Transformaram-se em heróis nacionais e também aos olhos do restante do planeta, que parou para acompanhar a aventura lunar pelas TVs rudimentares, ainda branco e preto.
Enfim, a humanidade, através da missão Apollo 11, realizava o sonho de pisar o solo lunar, e os primeiros humanos dessa aventura deixaram lá, além de suas pegadas até hoje na superfície, uma placa com os dizeres: “Aqui homens da Terra pisaram na Lua pela primeira vez. Nós viemos em paz, em nome de toda a humanidade”. Uma frase que o governo americano rapidamente esqueceu, afirmando pouco tempo depois que a Lua seria daquele que lá chegasse primeiro, passando por cima de um acordo internacional anos antes, que dizia ser de toda a humanidade a exploração da Lua e os benefícios dela. O Brasil foi um dos países que aceitou e assinou o acordo.
A missão Apollo 12, que levou mais três astronautas à Lua aconteceu no mesmo ano de 1969. E, apesar do acidente que impediu os astronautas da Apollo 13 descerem na Lua em 1970, evento retratado no filme “Apollo 13” de 1995 e dirigido pelo diretor Ron Howard (Oklahoma, 1954) e estrelado pelo ator Tom Hanks (Concord, 1956), mais quatro missões tripuladas bem sucedidas ocorreram nos anos de 1971 (Apollos 14 e 15) e 1972 (Apollos 16 e 17). Depois o homem não mais voltou à Lua...
Os motivos para isso são políticos e técnicos. O governo americano, que uma década antes em meio à Guerra Fria, conseguiu todo o apoio que precisava para o seu programa espacial, não encontrava mais argumentos para manter os altos gastos com o programa, já que o país se envolvera na Guerra do Vietnã (1959-1975), que resultou em muitas mortes e em uma dramática derrota. Além disso, como a Lua apresenta para muitos no governo apenas a possibilidade de exploração mineral, do ponto de vista técnico, era muito mais barato enviar sondas para o satélite do que missões tripuladas. Hoje o governo americano encontra dificuldades em expor argumentos favoráveis a um maior investimento no programa espacial, já que mantém, a exemplo do passado, uma guerra estúpida no Iraque, em que o Estado ao pilhar a economia daquele país, tem tido gastos exorbitantes e perdas humanas consideráveis.
Por fim, o programa Apollo foi substituído pelo projeto do ônibus espacial. O orçamento destinado à NASA diminuiu. E o fato mais triste é que boa parte do projeto Apollo se perdeu, desde seus registros até a experiência com a tecnologia em si.
O programa espacial russo, que como o norte-americano, conseguiu façanhas incríveis na Corrida Espacial, também se perdeu com o tempo, estando hoje praticamente esfacelado, principalmente por não contar atualmente (como também já não contava no passado) com o mesmo investimento que tinham os norte-americanos. A União Soviética deixou de existir em 1991 e seu programa espacial ou o que sobrou dele foi herdado pela Rússia.
Erra aquele que imagina ser possível pensar em ciência, na construção de seu conhecimento, sem pensar na política por trás do processo, que por sua vez é moldada por um contexto e interesses econômicos. De qualquer maneira, mesmo que muito do avanço tecnológico obtido pela corrida espacial não tenha sido usufruído pelo povo de fato, é inegável o extraordinário legado dessa aventura, como o desenvolvimento de comunicação via satélite, o desenvolvimento de computadores, que antes eram enormes e agora são minúsculos, o conhecimento e as técnicas de estudos na área de meteorologia, avanços no conhecimento da medicina, da geologia etc...
Costuma-se dizer que a Corrida Espacial terminou em 17 de julho de 1975. Nesse dia, em uma missão conjunta entre americanos e soviéticos, houve a acoplagem em órbita das naves Apollo 18, com três astronautas americanos, e Soyuz 19, com dois cosmonautas soviéticos. A missão foi um sucesso e desempenhou um papel ideológico importante, sugerindo uma aproximação entre as duas potências. Do ponto de vista da disputa espacial, as tensões foram de fato atenuadas, passando a haver até colaboração.
Mas o mesmo não ocorreu na disputa territorial, econômica e política entre os dois blocos na superfície terrestre. Alguns confrontos, mesmo que nunca militarmente diretos, ocorreram, como na guerra entre União Soviética e Afeganistão em 1979, em que os americanos armaram os afegãos, ou no campo esportivo, como os boicotes de Estados Unidos e União Soviética, respectivamente, aos Jogos Olímpicos de Moscou (URSS), em 1980, e de Los Angeles (EUA), em 1984.
Recentemente, americanos, russos, chineses e europeus manifestaram interesse em retomar as pesquisas e o desenvolvimento de tecnologia espacial, e um dos alvos dessa empreitada é a Lua novamente, além de Marte. Dessa vez, com um caráter bem menos ideológico e mais voltado para o desenvolvimento técnico-científico e para a exploração e colonização do espaço. Assim, ainda podemos sonhar com a Lua, até porque já fomos lá e sabemos ser essa “uma história verdadeira” e não obra da imaginação ou da ficção científica...
Veja um breve resumo das vinte missões Apollos planejadas: |